segunda-feira, 22 de outubro de 2007

A Conquista da Feminilidade

Excalibur e os Mistérios Iniciáticos
Francisco A. Taboada

A Conquista da Feminilidade
(As Camas Prodigiosas)

Num manuscrito que data do século XVI, The Weddynge of Sir Gawen and Dame Ragnel (Rawlinson C86), aparece um notável poema cavalheiresco onde Sir Gawain compartilha uma aventura com o Rei Artur.

Porém, é o nobre e leal cavaleiro sobrinho do Rei quem deve realizar a façanha suprema, já que, simbolicamente, Sir Gawain é o “alter ego juvenil” de Artur e, como tal, é um agente ativo no ato místico que daria o núcleo à aventura. A tarefa mais crítica e difícil é, então, a que deve executar este valoroso cavaleiro.
O conto narra o seguinte:

Encontrava-se o Rei Artur desfrutando de uma jornada de caça quando, perseguindo um corpulento cervo, afastou-se do resto que compunha a partida. Quando alcançou sua presa, desmontou e, com sua faca de caça, começou a preparar a peça capturada.

Logo percebeu que estava sendo observado, e quando elevou sua vista, surgiu à sua frente um cavaleiro fortemente armado.

- “Sejais bendito, Rei Artur. Me fizestes afronta há muitos anos e hei de vingá-la. Vossos dias estão contados.”
O Rei replicou:
- “Vós estais armado e eu só tenho esta adaga. Quem sois vós?”
O misterioso cavaleiro respondeu:
- “Meu nome é Gromer Somer Jouré”.

Ainda que o nome não tivesse significado para o Rei, este havia tocado um ponto importante com respeito aos costumes cavalheirescos, e o cavaleiro teve que ceder algo, com respeito a sua desarmada vítima.

Sir Gromer Somer Jouré fez jurar a Artur que, no ano seguinte, a esta mesma data, ele regressaria a este mesmo lugar, só, com sua adaga de caça como única arma, e trazendo como pagamento de resgate por sua vida, a resposta ao seguinte enigma: QUE É O QUE UMA MULHER MAIS DESEJA NO MUNDO?

O Rei deu sua palavra e regressou a seus cavaleiros.

Não podia ocultar seu abatimento e Sir Gawain, seu sobrinho, percebendo a tristeza no rosto de seu Rei, o levou à parte e perguntou sobre o acontecido.

Artur expôs o sucedido e ambos deliberaram por longo tempo. Finalmente, Sir Gawain propôs o seguinte: Viajar ambos por países estranhos a perguntar a quantos homens ou mulheres encontremos pelo caminho que pensavam sobre tal enigma. Cada um, por sua vez, iria anotando todas as respostas e, ao cabo de um ano, se reencontrariam na véspera para avaliar o que tenham recolhido.

Passou o tempo e ambos retornaram à corte. O Rei, não obstante a quantidade de respostas, ainda se sentia inquieto. Foi então que se aventurou na espessa floresta de Inglewoode encontrando-se com a bruxa mais feia que ser humano algum haja visto.
Rosto vermelho, nariz sujo e pontiagudo, boca larga, alguns dentes amarelos mal repartidos em ambas as gengivas, um pescoço comprido e magro, ombros pesados e caídos, e como grotesco contraste, montava um cavalo ricamente selado.

Uma horrível gargalhada fez empalidecer o Rei que se sentia estupefato ante tão detestável presença.

- “Rei Artur” - Disse a bruxa. – “Todas as respostas obtidas por vós e por Sir Gawain são erradas. Se não vos ajudar, estarás morto.”
O Rei contestou:
- “Dizei-me a que vos referis e por que minha vida está em vossas mãos e eu vos prometo satisfazer o que queirais.”
A proposta da bruxa deixou o Rei atônito.
- “Quero que me concedais como esposo a Sir Gawain, e os proponho um pacto: se minha resposta não vos salvar a vida, meu desejo será vão; porém, se minha resposta vos salvar, me concedereis ser a esposa de Sir Gawain. Escolheis logo, senão morto sereis.”
- “Santa Maria! Não posso ordenar a Sir Gawin que se case convosco. Isto depende somente dele.”
E Dona Ragnel, que assim se chamava a bruxa, respondeu:
- “Voltai então ao vosso palácio, e persuadais a Sir Gawain.”
Quando o Rei Artur voltou a se encontrar com Dona Ragnel e lhe comunicou a promessa de seu sobrinho, esta lhe disse então:
- “Senhor, agora sabereis que é o que as mulheres mais desejam de tudo o que existe: A respeito dos homens desejamos, mais que qualquer coisa, ter SOBERANIA.”

Nossa natureza conta com dois arquétipos, o masculino e o feminino. Particularmente, os desequilíbrios de nossa personalidade advêm, em geral, do fato de negarmos dignidade e consciência a uma quarta parte de nossa natureza. O perigo está em colocar a qualidade no lugar errado, erro psicológico e espiritual que cometemos repetidas vezes em nossas vidas pessoais metafísica. Porém, quando um elemento excluído é restituído recebendo seu verdadeiro valor, rapidamente se torna positivo e criativo.[1]

Dona Ragnel, bruxa horrível, é essa parte de feminilidade que possui a natureza masculina e em que, às vezes, por cultura ou educação, não prestamos a devida atenção. Habitamos um mundo onde só parece haver lugar para o masculino, não favorecendo essa sociedade o completo desenvolvimento de nossa natureza; um mundo voraz e competitivo em que os fracos não podem frutificar e em que até as próprias mulheres, através de um mal entendido feminismo, se esforçam por desenvolver desmedidamente suas naturezas masculinas, afogando o que nelas existe de verdadeiro valor.

Continuemos a história:
O Rei Artur, como correspondia a um cavaleiro, se apresentou ao encontro com Sir Gromer Somer Jouré e entregou os livros com as respostas, esperançado de em que alguma delas fosse a correta e assim ficassem livres daquele terrível compromisso ele e seu sobrinho.

Sir Gromer revisou uma a uma todas as respostas e, finalmente, sentenciou:
- “À fé minha, Rei, que sois um homem morto.”
- “Aguarda Sir Gromer. - Disse Artur. - Ainda tenho uma resposta mais. O que mais deseja uma mulher é que lhe seja outorgada a ‘Soberania’, pois o que mais lhe agrada é poder tomar suas próprias decisões.”
- “A que vo-lo contou. - vociferou Sir Gromer com uma fúria incontível - peço a Deus que a possa ver ardendo em uma fogueira porque foi minha irmã Dona Ragnel, aquela velha bruxa. Deus a confunda... pois do contrário eu haveria podido subjugar-vos... Tenhais muito bons dias.”

Ao alívio que experimentou Artur, seguiu-se uma grande tristeza. Porém Sir Gawain se comportou com cortesia e se apresentou ao casamento da maneira mais viril.
- “Louvado seja Deus! - Disse Dona Ragnel. - Por consideração a ti quisera ser uma mulher formosa, porque tua vontade é muito boa.”

Realizou-se a boda com missa e banquete, e a noiva esbanjou grosseria e mau gosto a ponto de todos se lamentarem e se compadecerem de Sir Gawain por haver tido que se sacrificar unindo-se àquele ser demoníaco.

Esta noite, no leito, Sir Gawain jazia de costas para sua consorte. Mas logo ela lhe disse:
- “Ah, Sir Gawain! Visto que sou casada convosco, mostrai-me vossa cortesia no leito. Se eu fosse formosa não vos comportarias dessa maneira. Não fazeis conta nenhuma do laço conjugal. Por consideração a Artur, beijai-me pelo menos. Rogo-vos, fazei-lo por mim. Vamos, mostrai o apaixonado que podeis ser!”

Sir Gawain, fazendo gala de sua gentileza, respondeu:
- “Farei mais que isso, juro por Deus.”
E se voltou para ela. E viu que era a mulher mais formosa que jamais pudera imaginar.
- “Por Jesus Cristo! - Disse o jovem. - Quem sois?”
E Dona Ragnel respondeu:
- “Senhor, sou vossa esposa.”
- “Ah senhora minha! Sou muito digno de reprovação. Mas agora vos mostrais tão formosa quanto hoje fostes a ser mais feio já contemplado. Que sejais assim, senhora. Me agrada muito.”

Mas Dona Ragnel explicou ao galante cavaleiro que sua beleza não duraria, pois somente podia ser bela a metade do dia e feia a outra metade. Porém deu ao cavaleiro a possibilidade de escolher entre ser feia para todos durante o dia e bela de noite, só para ele; ou bela para todos durante o dia e, de noite, feia na intimidade.

- “Que escolha difícil! - respondeu Sir Gawain. – Quisera escolher o melhor; sem dúvida, não sei que dizer. Querida senhora, que seja como desejais, deixo a escolha em vossas mãos. Meu corpo, meu coração e todo o mais são vossos para fazer deles o que queirais: tomai-los ou deixai-los; assim o juro ante Deus!”

- “Ah, louvado seja Deus, cortês cavaleiro! - disse a Dama muito animosamente. – Bem aventurado sejais entre todos os cavaleiros do mundo, porque agora fiquei livre do encantamento e me tereis formosa e atraente de dia e de noite.”

E então Dona Ragnel contou a Sir Gawain de que maneira sua madrasta a havia encantado mediante as artes da magia negra, e como a havia condenado a permanecer sob esta repugnante figura até que o melhor cavaleiro da Inglaterra se casasse com ela e lhe transferisse a “Soberania” de todo seu corpo e seus bens.

- “Assim foi como me deformou. - disse Dona Ragnel. - E vós, senhor cavaleiro, que me haveis dado sem condições a ‘soberania’, beijai-me agora, beijai-me e alegrai-vos, vos rogo.”

E então, cheios de alegria, desfrutaram sua felicidade.

Se a feminilidade, como mostra esta simpática história, é levada a exibir sua parte mais horrenda, o melhor que um homem pode fazer é comportar-se com cortesia e manter o respeito. Essa seria a maneira de restituir eficaz e rapidamente uma feminilidade tenebrosa e horrenda à sua beleza natural e verdadeira. É uma maneira de aprender a relacionar-se com o lado feminino interior, de tanta importância para o homem, a fim de poder manter sua integridade e, assim, jamais perder sua meta.

A feminilidade é uma parte tão básica quanto fundamental para nossa humana personalidade. Robert A. Johnson assinala que este princípio feminino pode ser relegado por um tempo, a fim de que a masculinidade possa consolidar os valores que lhe são próprios, porém, uma vez que a evolução masculina esteja assegurada, cedo ou tarde retorna a tomar o lugar que, por direito de evolução, lhe corresponde. A alma humana, melhor informada que o intelecto, não suporta o predomínio de um princípio sobre outro.

Poderíamos agregar que o misterioso cavaleiro irmão de Dona Ragnel, o tenebroso Gromer Somer Jouré, simboliza a metade masculina de nossa psique que tem perdido todo contato com este princípio feminino de que estamos tratando.

Quando um lado de nossa natureza humana cresce sem equilíbrio em relação ao outro, torna-se um elemento desestabilizador, que expulsa até o inconsciente seu oposto complementar. O lado triunfante torna-se dominador absoluto, mas não tardará em mostrar-se desequilibrado, doente e até monstruoso. Porém, indefectivelmente, o lado expulso retornará a procura de seu complemento para conseguir a integridade.
Poder sem amor torna-se brutalidade. Sentimento sem força torna-se sentimentalismo melodramático.

Há um princípio patriarcal dominante que sempre se recusa a fazer as pazes com o princípio feminino de nosso interior. Karl Gustav Jung sustenta que quando nos recusamos a integrar uma potencialidade do inconsciente, este reage de alguma maneira. Pode explodir em nossa personalidade em forma de neurose, compulsão, hipocondria, obsessão, doenças imaginárias etc, o que, aos poucos, nos irá paralisando na medida em que não integramos o potencial da parte feminina.

Porém, acontece que às vezes por educação ou por tendência cultural, não sabemos como tratar a questão e como aprender a considerar o feminino, então tentamos viver o lado feminino de maneira compulsiva, comemos e bebemos em demasia, permitimos que os humores se apoderem de nós, sofremos dores de cabeça e muitas outras complicações.

Se tratássemos nossa parte feminina com mais consciência (e isto vale também para a mulher de nosso machista século XX), muitas doenças desapareceriam, incluindo aquelas que se transformam em flagelos sociais como o câncer, para dar um único exemplo.

Precisamos ter mais tempo para caminhar ao sol, para observar as cores da terra, respeitar nosso corpo físico, despertar para a poesia e a música, ser mais corteses e solidários, demonstrar afeto àqueles que estão a nossa volta, sejam familiares ou amigos, tal como o assinala Robert A. Johnson.

Em todo ato da vida humana, se não se outorga à feminilidade o lugar que por direito natural lhe corresponde, nossas ações inevitavelmente cairão no fracasso. Nada pode prosperar de maneira incompleta.

Em outras aventuras de Sir. Gawain como, por exemplo, a que lhe tocara viver no Castelo Maravilhoso, se narra como principal encontro o que tem com uma “cama prodigiosa”. Essa cama, longe de ser um móvel plácido onde se poderia repor forças graças a um prazeroso descanso após uma jornada plena de aventuras, repentinamente “enlouqueceu”. Começou a galopar de um lado para outro da habitação, saltou, esperneou-se, bateu-se contra as paredes e fez um interminável esforço para tirar de cima seu ocupante. Parecia não tolerar o cavaleiro que a possuía havendo confiado em sua tranqüila aparência de disponibilidade.

Porém o herói se manteve com paciência e firmeza e a cama finalmente cedeu. Mas, longe de consolidar-se a paz, através das cortinas da cama caiu sobre o cavaleiro uma chuva de pedras e flechas lançadas por mãos e arcos invisíveis.

Sir Gawain teria morrido se não houvesse escutado o barqueiro (o qual o levara até essa ilha encantada em que se encontrava um misterioso castelo) quando lhe aconselhou não tirar a armadura no momento que se dispusesse a descansar. E pôde, assim, salvar-se se protegendo com seu escudo.

Porém, a insaciável feminilidade do “Castelo das Mães”, longe de apaziguar-se, submeteu o cavaleiro a um novo desafio. Abrindo a porta da habitação, apareceu um terrível leão que com um feroz rugido se lançou sobre o fustigado paladino. O real animal submetia o valor e a intrepidez do herói a uma prova tão perigosa como terrível. Mas Sir Gawain deu morte ao agressor e, depois, ferido e exausto, caiu sobre o corpo inerte do leão. Porém a prova havia sido superada com êxito.

Só então as rainhas e damas (o princípio feminino do castelo) fizeram sua aparição. Elas socorreram ao eleito, o curaram e restauraram suas forças. As damas que o trataram com tanta altivez, agora lhe serviam e confortavam. O eleito as havia libertado do feitiço de “superioridade amazônica” graças a sua paciência e constância, virtudes que, definitivamente, são necessárias para entender-se com esse princípio feminino tão altivo e oposto à virilidade.

Essa vitória permite o acesso à plenitude da consciência equilibrada, a conciliação dos opostos em sua personalidade e a libertação de toda unilateralidade que obstrui qualquer experiência e qualquer expressão desta realidade única chamada vida.

Quando Sir Gawain e Sir Lancelot lançaram-se a resgatar à rainha Gwinwifar das garras de Sir Meleagant, tiveram também que passar por provas desse tipo na segunda noite, quando se alojaram em uma torre em frente à cidade, onde os deixara o anão da carroça (Le Chevalier de la Charrette).

A donzela da torre os conduziu a suas camas a fim de que pudessem descansar. Porém havia uma terceira cama, mais suntuosa e confortável que as outras duas.

- Nela - disse a donzela - não dormiu jamais alguém que não o merecesse.

Mas Lancelot, longe de acovardar-se, desnudou-se de imediato e deitou-se. À meia noite aconteceu um prodígio: misteriosamente, do teto da cama caiu uma lança que por pouco atravessa o flanco do cavaleiro. Seus bons reflexos evitaram a desgraça e só sofreu um arranhão. Porém nela estava amarrada uma bandeira em chamas. Então a cama inteira pegou fogo, no entanto o herói, sem levantar-se dela, conseguiu apagá-lo e, tomando a lança, a arremessou longe de onde estava a cama.

Logo voltou a deitar-se e retomou o sono.
Galahad também dormiu em uma destas camas maravilhosas durante sua aventura em “A Ilha das Mulheres”.

Em todos os casos o símbolo se repete e seu significado sempre esta se referindo à conquista do princípio feminino.

segunda-feira, 15 de outubro de 2007

Mulheres que Correm com Lobos

Olá, meus amigos,

Algumas pessoas tem me perguntado porque tenho colocado tantas mensagens especificamente sobre o feminino em um blog que fala sobre relacionamentos.

Eu esclareço, entao, que é porque já não sabemos o que é ser mulher. Em uma sociedade com valores tão masculinos, a mulher não sabe ser mulher, e o homem não sabe o que é uma mulher.

Antes de querer se relacionar com um homem, a mulher precisa primeiro simplesmente ser mulher. Tem até uma "canção" utlizada em Terreiros de Umbanda que diz: "Tem que saber ser mulher...."

Então vamos trabalhar nosso lado feminino, que foi tão reprimido por todos estes anos. Vamos trazer nossa mulher poderosa para a luz. Vamos iluminá-la. Vamos tirar o poder que foi dado ao homem e resgatar o poder feminino.

Vamos ser iguais. Não para competir. E sim para AMAR. Para compartilhar. Para trocar experiências e enrgias.

Espero que gostem dos textos.

Com amor,

Rute Moabita





~MULHERES QUE CORREM COM LOBOS BY MALUZINH@ ~


Introdução Cantando sobre os ossos

A fauna silvestre e a mulher selvagem são espécies em risco de extinção.
Observamos,ao longo dos séculos,a pilhagem,a redução de espaço e o esmagamento da natureza instintiva feminina. Durante longos períodos ela foi mal gerida,à semelhança da fauna silvestre e das florestas virgens. Há alguns milênios,sempre que lhe viramos as costas,ela é relegada às regiões mais pobres da psique.

As terras espirituais da Mulher Selvagem, durante o curso da história,foram
saqueadas ou queimadas,com seus refúgios destruídos e seus ciclos naturais transformados à força em ritmos artificiais para agradar os outros. Não é por acaso que as regiões agrestes e ainda intocadas do nosso planeta desaparecem à medida que fenece a compreensão da nossa própria natureza selvagem mais íntima.

Não é tão difícil compreender porque as velhas florestas e as mulheres velhas não são consideradas reservas de grande importância.Não há tanto mistério nisso. Não é coincidência que os lobos e os coiotes, os ursos e as mulheres rebeldes tenham reputações semelhantes.

Todos eles compartilham arquétipos instintivos que se relacionam entre si, por isso,têm reputação equivocada de serem cruéis,inatamente perigosos,além de vorazes.

A vida e meu trabalho como analista junguiana e cantadora,contadora de histórias,
me ensinaram que a vitalidade esvaída das mulheres pode ser restaurada por meio
de extensas escalações "psíquico-arqueológicas", e,através de sua incorporação ao arquétipo da Mulher Selvagem,conseguimos discernir os recursos da natureza mais
profunda da mulher.

A mulher moderna é um borrão de atividade. Ela sofre pressões no sentido de ser
tudo para todos. A velha sabedoria há muito não se manifesta. O título do livro, Mulheres que correm com os lobos,mitos e histórias do arquétipo da Mulher Selvagem,
foi inspirado em meus estudos sobre a biologia de animais selvagens, em especial os lobos.

Os estudos de lobos Canis Lupus e Canis rufus são como a história das mulheres, no que diz respeito à sua vivacidade e à sua labuta. Os lobos saudáveis e as mulheres
saudáveis têm certas características psíquicas em comum: percepção aguçada,espírito
brincalhão e uma elevada capacidade para a devoção.

Os lobos e as mulheres são gregários por natureza,curiosos, dotados de grande resistência e força. São profundamente intuitivos e têm grande preocupação para com seus filhotes,seu parceiro e sua matilha. Têm experiência em se adaptar a circunstâncias em constante mutação. Têm uma determinação feroz e uma extrema coragem.

No entanto as duas espécies foram perseguidas e acossadas,sendo-lhes falsamente atribuído o fato de serem trapaceiros e vorazes, excessivamente agressivos e de terem menor valor que os seus detratores.

Foram alvo daqueles que preferiam arrasar as matas virgens bem como os arredores selvagens da psique,erradicando o que fosse instintivo,sem deixar que dele restasse nenhum sinal.

A atividade predatória contra os lobos e contra as mulheres por parte daqueles que não os compreendem é de uma semelhança surpreendente. Foi por aí que o conceito do arquétipo da mulher Selvagem primeiro se concretizou para mim:no estudo dos lobos.

Estudei também outras criaturas como, por exemplo, os ursos, os elefantes e os pássaros da alma-as borboletas. As características de cada espécie forjassem indicações abundantes do que pode ser conhecido sobre psique instintiva da mulher.

Chamo-a Mulher Selvagem porque essas exatas palavras, mulher e selvagem, criam llamar o tocar a la puerta, a batida dos contos de fadas à porta da psique profunda da mulher.Llamar o tocar a la puerta significa literalmente tocar o instrumento do nome para abrir uma porta.

Significa usar palavras para obter a abertura de uma passagem. Não importa a cultura pela qual a mulher seja influenciada,ela compreende as palavras selvagem e mulher intuitivamente Quando as mulheres reafirmam seu relacionamento com a natureza selvagem, elas recebem o dom de dispor de uma observadora interna permanente,uma sábia, uma visionária,um oráculo,uma inspiradora, uma instintiva,uma criadora,uma inventora e uma ouvinte que guia,sugere e estimula uma vida vibrante nos mundos exterior e interior.

Quando as mulheres estão com a Mulher Selvagem , a realidade desse relacionamento transparece nelas. Não importa o que aconteça,essa instrutora, mãe e mentora vagem dá sustentação às suas vidas interior e exterior. Portanto,o termo selvagem neste
contexto não é usado em seu atual sentido pejorativo de algo fora de controle,mas em seu sentido original, de viver uma vide natiral,uma vide em que a criatura tenha uma integridade inata e limites saudáveis.

Essas palavras, mulher e selvagem, fazem com que as mulheres se lembrem de quem são e do que representam. Elas criam uma imagem para descrever a força que sustenta todas as fêmeas. Elas encarnam uma força sem a qual as mulheres não podem viver.

O arquétipo da mulher selvagem pode ser expresso em outros termos igualmente apropriados. Pode-se chamar essa poderosa natureza psicológica de natureza instintiva, mas a Mulher Selvagem é a força que está por trás dela.(...mesmo a mulher presa com a máxima segurança reserva um lugar para o seu self selvagem,,pois ela intuitivamente sabe que um dia haverá uma saída,uma oportunidade,e ela
poderá escapar.).

A mulher selvagem carrega consigo os elementos para a cura;traz tudo o que a mulher precisa ser e saber.Ela carrega histórias e sonhos, palavras e canções,signos e símbolos.

Ela é tanto o veículo quanto o destino. Aproximar-se da natureza instintiva
não significa desestruturar-se,mudar tudo da esquerda para a direita,do preto
para o branco,passar do oeste para o leste,agir como louca ou descontrolada.
Não significa perder as socializações básicas ou tornar-se menos humana.
Significa exatamente o oposto. A natureza selvagem possui uma vasta integridade.

Ela implica delimitar territórios, encontrar nossa matilha,ocupar nosso corpo com segurança e orgulho independente dos dons e das limitações desse corpo, falar e agir em defesa própria.estar consciente, alerta,recorrer aos poderes da intuição e do pressentimento inato às mulheres, adequar-se aos próprios ciclos,descobrir aquilo a que pertencemos, despertar com dignidade e manter o máximo de consciência possível.

E então,o que é a Mulher Selvagem?

Do ponto de vista da psicologia arquetípica,bem como da tradição das contadoras de histórias,ela é a alma feminina. No entanto, ela é mais do que isso. Ela é a origem do feminino. Ela é tudo o que for instintivo,tanto do mundo visível quanto do oculto-ela é a base. Cada um de nós recebe uma célula refulgente que contém todos os instintos e conhecimentos necessários para nossa vida."



(Extraído do belíssimo livro de Clarissa Pinkola Estés, Mulheres que correm com os lobos. )