Uma noite as mariposas reuniram-se atormentadas pelo desejo de unir-se à vela. Disseram todas: " Temos de encontrar alguém que possa dar-nos notícias do objeto de nossa busca amorosa". Uma mariposa foi então até um distante castelo e avistou no interior a luz de uma vela. Ela retornou e contou o que havia visto; pôs-se a fazer a descrição da vela de acordo com sua inteligência.
Porém a sábia mariposa que presidia a reunião advertiu que a mariposa exploradora nada sabia sobre a vela. Outra mariposa aproximou-se da luz e tocou com suas asas a chama: a vela foi vitoriosa, e a mariposa vencida. Esta última também retornou e revelou qualquer coisa a respeito do mistério; explicou, segundo sua própria experiência, em que consistia a união com a vela. Porém a sábia mariposa lhe disse: "Tua explicação não é melhor que aquela que foi dada por tua companheira".
Uma terceira mariposa voou, ébria de amor, e atirou-se violentamente contra a chama da vela: impulsionada por suas patas traseiras, ela estendeu ao mesmo tempo suas dianteiras em direção à chama. Perdeu a si mesma e identificou-se alegremente com a chama; abraçou-a por completo e seus membros tornaram-se vermelhos como o fogo. Quando a sábia mariposa, chefe da reunião, viu ao longe que a vela havia identificado o inseto consigo mesmo e lhe havia dado sua aparência, disse: "A mariposa conheceu o que queria saber; porém somente ela o compreende, eis tudo".
Aquele que de fato não tem rastro nem sinal de sua própria existência sabe mais que os outros a respeito do aniquilamento. Enquanto não ignorares teu corpo e tua alma, poderá conhecer o objeto de teu amor? Penetrar a verdade oculta da qual não pode falar é ir além de todo conhecimento e encontrar a compreensão que escapa à mente. Aqui todo conhecimento é inútil; aquele que obtém a menor notícia a esse respeito mergulha por isso sua alma no sangue; no lugar onde não é admitido ninguém senão Ele mesmo, ninguém, mais poderá sê-lo
Conto Sufi
quarta-feira, 11 de junho de 2008
segunda-feira, 2 de junho de 2008
Lilith
LILITH NA ANTIGUIDADE
Shirlei Massapust
Carta de divórcio e exorcismos por via escrita:
A cerimônia de casamento judaica é precedida pela assinatura do ketuba, o contrato de casamento (originalmente criado para a proteção econômica da mulher). Em certos casos admite-se o divórcio (guerushin). A iniciativa é tomada pelo marido que dá a sua mulher um documento chamado guet. Após o divórcio, a quantia de sustento estipulada no contrato de casamento é paga pelo marido. Há casos em que a mulher fica com a guarda dos filhos. Por exemplo, um guet babilônico redigido em 552 a.C. pelo sacerdote de Sippar, Mushezib-Marduk, atribui ao ex-marido “Na’Id-Marduk, filho de Shamash-balatsu-iqbi” a obrigação de dar uma pensão alimentícia a sua ex-esposa Ramua e a seu filho Arad-Bunini, constituída por poções diárias de “quatro qa de comida, três qa de bebida” e uma poção anual de “quinze manas de posses, um pi sesame” e “um pi de sal” para a despensa caseira.
O “vôo” – ou seja, a morte – da ex-esposa não anula a obrigação do homem para com o filho vivo no caso “dela fugir para Nergal”.[1] Porém, quando um espírito feminino voa para um lar e “casa-se” com um esposo vivo, atormentando-o sexualmente, a ex-esposa é expulsa através de um exorcismo criativamente adaptado no formato de um guet. Essa simulação de contrato de divórcio não estipula pensão nem tampouco menciona filhos hipotéticos. O seguinte texto foi traduzido de um amuleto babilônico, em aramaico:
Este é o contrato de divórcio (guet) para demônios, espíritos, Satã e Lilith; em ordem de bani-los de toda a casa. Yah, interrompa o Rei dos demônios, a grande governante das liliths. Eu te adjuro, seja você macho ou fêmea.[2] Eu adjuro você. Assim como os demônios escrevem cartas de divórcio, dão-nas para suas esposas e não retornam para elas, pegue sua carta de divórcio. Aceite sua ketubá, vá, deixe e parta da casa. Amém, Amém, Amém, Selah.[3]
Na Babilônia encontramos amuletos em aramaico personalizados para “amarrar” Lilith. Aparentemente foram confeccionados por encomenda de casais desejosos de afastar as tentações e trazer prosperidade ao seu lar. Costumeiramente, apresentam um texto enroscado como uma longa tira em caracol contendo elemento do divórcio e/ou do exorcismo circundando uma rústica representação de Lilith acorrentada.
Por exemplo, no séc. VI a.C., o rabino Joshua bar Perahia enviou um banimento adjurando “Lilith, o macho lilim, as fêmeas liliths, a Bruxa e o Ladrão” a deixarem a residência de Geyonai bar Mamai e sua esposa Rashnoi, filha de Marath, em nome de YHWH-El, deus de Abraão, Isaac e Jacó. Todos estes seres ‘divorciados’ foram expulsos para longe, completamente despidos. Lilith, “cujo pai é chamado Palhas e cuja mãe é Pelahdad”, não estaria nem mesmo “vestida com seus cabelos desalinhados que deixa voar atrás de suas costas”.[4] Explica:
Um guet desceu para nós do paraíso e neste encontrou-se escrito seu aviso e intimação em nome do Palsa-Pelisa que vos rende teus divórcios e separações. Então, Lilith, macho lilin e fêmea lilith, Bruxa e Ladrão, estejam incluídos no banimento... de Joshua bar Perahia, que tem assim falado: “Uma carta de divórcio, que cruzou o mar, veio para vocês...”.
Saibam disto e deixem a moradia residencial de Geyonai bar Mamai e sua esposa Rashnoi, a filha de Marath. Vocês não podem aparecer para eles novamente, tanto nos sonhos à noite quanto no repouso de dia, porque vocês estão selados com o signo de El-Shaddai, com o signo da casa de Joshua bar Perahia e pelos Sete que estão depois dele. (University Museum, University of Pennsylvania).[5]
Expulsos por uma carta de divórcio enviada pelos “exércitos de fogo nos astros, na Carruagem de El-Panim”, os “cinco de vocês”, Lilith, macho lilim, fêmea lilith, Bruxa e Ladrão, compõe uma coletividade afim. O rabino Joshua bar Perahia – ou aquele que escreve em seu nome – coloca Lilith como uma espécie de padroeira das bruxas e ladrões.[6]
Da mesma forma, num amuleto persa contendo um exorcismo doméstico personalizado para Bahram-Gushnasp, filho de Ishtar-Nahid, presume-se que uma feiticeira havia previamente utilizado seus conhecimentos de astrologia, bruxaria, maldições e invocações para encher a casa daquele homem com demônios, diabos e liliths. O amuleto em aramaico segue o estilo babilônico, com texto em caracol circundando uma Lilith acorrentada:
Vocês estão atados e selados. Todos vocês: Demônios, diabos e liliths. Forte e poderosamente presos, assim como estão presos Sison e Sisin... A maligna Lilith, que faz os corações dos homens perderem-se, que aparece nos sonhos noturnos e nas visões do dia, que queima e derruba com pesadelo, ataca e mata crianças, meninos e meninas. Ela está dominada e selada fora da casa e moradia de Bahram-Gushnasp, filho de Ishtar-Nahid, pelo talismã de Metatron, o grande príncipe, que é chamado ‘O Grande Curandeiro da Misericórdia’... que vence demônios e diabos, artes negras e poderes da bruxaria. Afasta-os da casa e moradia de Bahram-Gushnasp, filho de Ishtar-Nahid. Amém, Amém, Selah.
Estão vencidas às artes negras e os poderes da bruxaria. Vencida a mulher feiticeira. Suas bruxarias, ataques, maldições e invocações [foram] afastadas das quatro paredes da casa de Bahram-Gushnasp, filho de Ishtar-Nahid. Vencida e jogada abaixo está a mulher feiticeira: Vencida na Terra e vencida no Céu. Estão vencidas suas constelações e estrelas. Estão atados os trabalhos de suas mãos. Amém, Amém, Selah (The Semitic Museum, Harvard University)[7].
Amuletos esconjuratórios podem mesclar técnicas e estilos, mas o tema central costuma girar em torno do ciclo da reprodução humana. Reunindo as informações inclusas nas fontes analisadas construímos o retrato popular do reino de Lilith.
Na Babilônia e na Pérsia os demônios invadem lares em bandos, aparecendo tanto nos sonhos à noite quanto no repouso (ou visões) de dia. Lilith, os machos lilim, as fêmeas liliths, demônios, espíritos e Satã podem acompanhar humanos igualmente indesejáveis como a Bruxa e o Ladrão. Por isso precisam ser vencidos na Terra e no Céu. É uma sociedade hierarquizada.
Lilith, filha de Palhas e Pelahdad, é a grande governante das liliths. Ela poderia fazer par com Satã, o Rei dos demônios, mas quando se cansam de uma parceira os demônios escrevem cartas de divórcio, dão-nas para suas esposas e não retornam para elas.
A maligna Lilith anda vestida com seus cabelos desalinhados que deixa voar atrás de suas costas. Ela leva os corações dos homens à perdição, queima e derruba com pesadelo, ataca e mata crianças de ambos os sexos. Um antigo manuscrito babilônico sugere as seguintes salvaguardas: “Coloque uma agulha perto da mecha de um candeeiro, ou coloque uma medida de trigo no quarto da parturiente a ser protegida contra Lilith”.[8]
Definição de Lilith no Talmud:
A lilith acorrentada dos amuletos babilônicos voa, mas não possui asas. No entanto, entre as fontes iconográficas conservou-se um baixo relevo do período helenístico retratando uma Lilith alada, com pés de pássaro, atacando um judeu adormecido.
Ela ‘senta-se’ sobre o homem, assumindo a posição sexual superior. O Talmud, elaborado por rabinos do século III ao VI, informa que Lilith é uma demônia que possui face humana e asas (B. Nid. 24b). Lilith tem cabelos compridos (b. Er. 100b) e, segundo o conselho de Rabbi Ḥanina, “é proibido dormir sozinho numa casa, porque quem dorme sozinho numa casa é abraçado por Lilith” (B. Shab. 151b).[9] Seu histórico de avidez sexual remonta aos tempos da expulsão de Adão do Édem:
Rabbi Yirm’ ya bem El‘azar falou: “Em todos aqueles anos nos quais Adão, o primeiro homem, esteve apartado de Eva, ele gerou espíritos, demônios e Lilin...” Rabbi Meir falou: “Adão, o primeiro homem, era muito piedoso. Quando viu que a punição de morte fora ordenada [por deus] por sua causa, sentou-se em jejum por 130 anos, separou-se da mulher por 130 anos, e usou cintos de figo sob a carne por 130 anos. Mas nós estamos falando [sobre espíritos, demônios e Lilin] que ele gerou por meio de emissão espontânea de esperma. Sua paternidade dos espíritos malignos, aqui referidos, veio como resultado de sonhos úmidos” (B. Er. 18b).[10]
Essencialmente, esta história é um alerta contra o impulso sexual reprimido pelo celibato. O casamento supostamente evitaria incômodos oníricos, como as “imagens de obscenidade” registradas no ano 400 pelo bispo Agostinho de Hipona.
“A ilusão da imagem”, queixou-se Agostinho, “possui tanto poder na minha alma e na minha carne, que, enquanto durmo, falsos fantasmas me persuadem a ações a que, acordado, nem sequer as realidades me podem persuadir”.[11] No folclore judaico esta variante sobrenatural do estupro pode resultar numa prole numerosa. O Talmud contém um curioso testemunho ocular de Rabba bar Bar Ḥana sobre a captura e execução de um deles:
Certa vez eu vi Hormin [Ahriman], filho de Lilith, correndo no topo das fortificações da muralha de Mahoza. Um cavaleiro estava passando abaixo da muralha e não conseguiu capturá-lo. Ao mesmo tempo eles selaram para ele [Hormin] duas mulas nas duas pontes do rio Rognag.
Ele pulou de uma à outra, indo e vindo. Segurou dois copos de vinho durante todo o tempo, passando o vinho de um para outro, e não caiu nada no chão. Aquele dia estava [tempestuoso como àquele sobre o qual isto foi escrito] Elas [as ondas] subiam ao céu e baixavam ao abismo (Salmo 107:26). E quando a casa do governante [dos demônios] foi posta a par disto, eles o mataram [porque não é costume entre os demônios exibir-se aos humanos, e revelar seus segredos]. (B. Bab. Bath. 73a-b).[12]
Lilith tornou-se uma espécie de bicho-papão inventado para amedrontar os adultos. Em resumo, Lilith é uma ninfomania que usa o sêmem desperdiçado pelos celibatários durante o sono para conceber uma infinidade de demônios.
Na idade adulta esses filhos infernizam a vida do pai – e de toda a população – fazendo desde bruxedos ou traquinagens inofensivas até o cúmulo das guerras, pestes e todo tipo de desgraça. Mas o folclore que cria monstros também receita remédios para os que insistem em adiar a data do casamento.
Por exemplo, Shahrukh Husain retomou um conto judaico onde a religiosidade popular conseguiu driblar o conselho da moral ortodoxa. Nesta história, um judeu seduzido e enfeitiçado pelos encantos de Lilith resolveu pedir ajuda ao Rabino Mordecai, de Neschiz. Porém, quando soube de sua vinda, o rabino avisou a todos os judeus da cidade para não deixá-lo entrar em suas casas, de forma que o enfeitiçado não encontrou lugar para passar a noite e foi obrigado a dormir sobre um monte de feno.
À meia-noite Lilith apareceu e pediu-lhe que levantasse do feno. O judeu estranhou o fato, pois era ela quem sempre ia até ele e não o oposto. Quando Lilith explicou que naquele monte de feno havia uma folha de capim que lhe causava alergia o homem pegou a folha e enrolou-a em volta do pescoço “livrando-se assim para sempre do domínio dela”.[13] Liberto do fado punitivo, ele finalmente pode contrariar o Talmude dormindo só e em paz.
Exorcismos e invocações por via oral:
No Targum Jerushalami, a bênção sacerdotal do texto massorético “Iahweh te abençoe e te proteja” (Números 6:24), foi ampliada para “O Senhor te abençoe em todo ato teu e te proteja dos Lillim”. A pronúncia desta curta sentença oral devia representar uma das formas mais simples de proteção de seu tempo.
Porém, havia um complexo sistema ritualístico cunhado para o trato de Lilith e sua descendência. Amuletos contendo exorcismo residencial podiam ser personalizados e utilizados por pessoas comuns; mas as fórmulas do banimento de um reino deveriam ser recitadas por um instrutor especializado. O capítulo 34 do Livro de Isaías serviu de base para a construção de um exorcismo da comunidade qunrânica a ser proferido pelo detentor do título de Instrutor (Maskil). O texto faz parte de uma biblioteca acumulada durante vários séculos por um grupo sectário e depositada em grutas no deserto de Judá no ano 68 do século I da era cristã:
Eu, o Instrutor, proclamo a majestade de seu esplendor, a fim de assustar e aterrorizar todos os espíritos dos anjos da destruição e os espíritos bastardos, demônios, Liliths, corujas e chacais [...], aqueles que atacam inesperadamente para desviar o espírito do conhecimento, para deslocar seus corações.[14]
Em II Baruch, um livro apócrifo cristão escrito em siríaco no fim do primeiro século, encontramos a inversão desta fórmula num cântico cunhado para trazer a destruição da espécie humana pela invocação destes seres:
Eu invoco as sereias do mar; ó vós, Lilin, espectros da noite, vinde do deserto! Ó vós, Shedim[15] e vós, dragões das florestas! Vinde! Cingi os vossos lombos para o gemido de dor e entoai comigo os cantos de luto! Gemei comigo! (II Baruch, X).[16]
Quando o Livro de Isaías estava sendo escrito já se confeccionavam amuletos profiláticos contra Lilith. De certa forma, ela era suficientemente conhecida para que o autor bíblico dispensasse sua apresentação e mencionasse apenas sua procriação num reino destruído pelo castigo de Iahweh.
Em Isaías 34:14, Lilith aparece residindo nas ruínas de Edom. O Zohar retoma a profecia, na interpretação de que deus provocaria a destruição e o arruinamento eterno da perversa Roma medieval. — “Ele enviará Lilith para lá, e a deixará habitar naquela ruína, porque ela é o arruinamento do mundo.
A isto se refere o versículo: ‘Ali Lilith repousará e encontrará seu local de descanso’ (Isaías. 34:14)” (Zohar 3:19a). — Os anjos da destruição que acompanham as liliths nos Cânticos do Maskil também destroem os povos que andam no lote de Belial (personificado pelas tropas de Edom, Moab, dos ‘filhos de Amon’, da Filistéia, dos Kittim no Egito e Assur) na Regra da Comunidade, de Qumran.
Sua vinda “será para abundância de castigos por mãos de todos os anjos de destruição, para condenação eterna pela ira abrasadora do Deus da vingança, para erro perpétuo e vergonha sem fim com a ignomínia da destruição pelo fogo das regiões tenebrosas”.[17] O Livro de Isaías profetiza que após a destruição de Edom suas ruínas seriam ocupadas pelos ’Ochim,’Iyyim, Tannim, Benoth ya‘anah, Çiyyim, Se‘irîm e Lilith.
No Salmo 74, versículo 14, os Çiyyim representam “as duas cabeças de Leviatã”. Tem como sentido exato “habitante do deserto” ou “gritador, cavador” e provém da mesma raiz de Tannim, ’Iyyim e ’Ochim, cujo sentido é “uivar” ou “prolongar-se com gritos discordantes”.[18] Benoth ha ‘anah traduz “Filhas da Gula”. A impressão que temos é de uma orgia selvagem ou de bando de criaturas fazendo uma barulhenta algazarra.
No mesmo lugar viveriam os se’irîm, que a Bíblia dos Setenta traduz como δαιμόνια “demônios” (Isa. 34:14) e μάταια “coisas vãs” (Lev. 17:7).[19] Ao fazer a conversão das entidades mitológicas judaicas para as gregas, a Vulgata associou os se’irîm aos sátiros.
O texto bíblico fala sobre facções judaicas politeístas cujos sacerdotes ofereciam sacrifícios “aos sátiros com os quais se prostituem” (Levítico 17:7).[20] O auge de sua difusão deu-se no governo de Jeroboão, filho de Nabat, que “estabelecera sacerdotes para os lugares altos e para o culto dos sátiros e dos bezerros que ele tinha fabricado” (II Crônicas 11:15).[21]
Posteriormente, Josias estendeu sua autoridade sobre uma parte do antigo território israelita no “Reino do Norte”. Durante seu reinado (640-609), demoliu “o altar que estava em Betel”, edificado por Jeroboão, “destruiu este lugar alto, queimou-o, reduziu-o a cinzas e queimou o poste sagrado” (II Reis 23: 15).[22] Porém, em Edom todo tipo de demônio encontraria um lugar de descanso. Ali, nenhum deles faltará, nenhum deles ficará sem o seu companheiro, porque assim ordenou a sua boca; o seu espírito os ajuntou. Ele mesmo lançou a Sorte para eles, a sua mão distribuiu-lhes, com o cordel, a porção de cada um. Eles a possuirão para sempre, de geração em geração a habitarão (Isaías 34: 16-17).[23]
z
Machos lilim, fêmeas liliths, demônios, espíritos, Satã, Bruxa, Ladrão, ’Ochim,’Iyyim, Tannim, Benoth ya‘anah, Çiyyim, Se‘irîm, anjos da destruição, espíritos bastardos, espectros da noite, Shedim, dragões das florestas, etc. Na antiguidade Lilith andava sempre em bando, povoando as ruínas de reinos e cidades destruídas. Todas essas criaturas que a acompanham vão influenciar de alguma forma as características de Lilith nos comentários posteriores.
Bibliografia:
LANGTON, Édouard. La Démonologie: Étude de la doctrine Juive et Chrétienne son origine et son développement. Trd. G. Waringhien, Agrégé de L’Université. Paris, Payot, 1951.
PATAI, Raphael. Gates to the Old City: A Book of Jewish Legends. New York, Avon, 1980, p 184.
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[1] BARTON, George Aaron. Contracts. In: Assyrian and Babylonian Literature. New York, D. Appleton & Company, 1904, p 256-276.
[2] Alusão ao Gênese “macho-fêmea o criou” (Gen. 1:27): “Samael e Lilith foram criados similares à forma de Adão e Eva” (Pequenos Hehalot, In HÁ-KOHEN, Isaac b. Jacob. Tratado da Emanação Esquerda).
[3] PATAI, Raphael. The Hebrew Goddess. Third Enlarged edition. New York, 1978. KTAV Publishing House. (Also: Wayne State University Press, 1990).
[4] PATAI, Raphael. The Hebrew Goddess. Third Enlarged edition. New York, KTAV, 1978.
[5] PATAI, Raphael. The Hebrew Goddess. Third Enlarged edition. New York, KTAV, 1978.
[6] PATAI, Raphael. The Hebrew Goddess. Third Enlarged edition. New York, KTAV, 1978.
[7] PATAI, Raphael. The Hebrew Goddess. Third Enlarged edition. New York, KTAV, 1978.
[8] KULTUV, Bárbara Black. O Livro de Lilith. Trd. Rubens Rusche. São Paulo, Cultrix, 1997, p 141.
[9] PATAI, Raphael. Gates to the Old City: A Book of Jewish Legends. New York, Avon, 1980, p 184.
[10] PATAI, Raphael. Gates to the Old City: A Book of Jewish Legends. New York, Avon, 1980, p 185.
[11] AGOSTINHO. Confissões. Trd. J. Oliveira Santos, S.J., e A. Ambrósio de Pina, S.J. São Paulo, Nova Cultural, 1996, p 287.
[12] PATAI, Raphael. Gates to the Old City: A Book of Jewish Legends. New York, Avon, 1980, p 184-185.
[13] Lilith e a Folha de Capim. In: HUSSAIN, Shahrukh. O Livro das Bruxas. Objetiva.
[14] Texto reconstituído a partir de fragmentos de dois pergaminhos: 4Qcânticos do Sábioa (4Q510 [4QShira]), fragmento 1: 4-6, e 4Qcânticos do Sábiob (4Q511 [4QShirb]), fragmento 10: 1-3. In: MARTINEZ, Florentio García. Textos de Qumran. Trd. Valmor da Silva. Rio de Janeiro, Vozes, 1995, p 417 e 419.
[15] O árabe Shedim deriva do hebraico Siddim. Parece vir da raiz ShD, da qual deriva o nome divino Shaddai. Significa literalmente “derramadores”, mas costuma ser traduzido como “demônios”. Os cananeus “sacrificaram seus filhos e suas filhas aos Siddim” (Salmos 106: 37) e os adoravam como divindades.
[16] TRICCA, Maria Helena de Oliveira (org). Apócrifos III: Os Proscritos da Bíblia. São Paulo, Mercuryo, 1996, p 307.
[17] 1QRegra da Comunidade (1Qs), Col. III: 9-13. In: Textos de Qumran: Edição fiel e completa dos Documentos do Mar Morto. Tradução dos originais hebraico e aramaico à cura de Florentino García Martinez. Tradução do espanhol: Valmor da Silva. Petrópolis, Vozes, 1995, p 50.
[18] Nas 14 passagens onde Tannim figura na Torah, a Bíblia dos Setenta traduziu de seis formas diferentes. ’Iyyin significa ainda “uma ilha” de onde vem a versão inglesa “os bichos selvagens das ilhas”.
[19] LANGTON, Édouard. La Démonologie: Étude de la doctrine Juive et Chrétienne son origine et son développement. Trd. G. Waringhien, Agrégé de L’Université. Paris, Payot, 1951, p 48.
[20] A BÍBLIA DE JERUSALÉM. Paulus, julho de 1995, p 194.
[21] A BÍBLIA DE JERUSALÉM. Paulus, julho de 1995, p 651.
[22] A BÍBLIA DE JERUSALÉM. Paulus, julho de 1995, p 588.
[23] A BÍBLIA DE JERUSALÉM. Paulus, julho de 1995, p 1213-1414.
Shirlei Massapust
Carta de divórcio e exorcismos por via escrita:
A cerimônia de casamento judaica é precedida pela assinatura do ketuba, o contrato de casamento (originalmente criado para a proteção econômica da mulher). Em certos casos admite-se o divórcio (guerushin). A iniciativa é tomada pelo marido que dá a sua mulher um documento chamado guet. Após o divórcio, a quantia de sustento estipulada no contrato de casamento é paga pelo marido. Há casos em que a mulher fica com a guarda dos filhos. Por exemplo, um guet babilônico redigido em 552 a.C. pelo sacerdote de Sippar, Mushezib-Marduk, atribui ao ex-marido “Na’Id-Marduk, filho de Shamash-balatsu-iqbi” a obrigação de dar uma pensão alimentícia a sua ex-esposa Ramua e a seu filho Arad-Bunini, constituída por poções diárias de “quatro qa de comida, três qa de bebida” e uma poção anual de “quinze manas de posses, um pi sesame” e “um pi de sal” para a despensa caseira.
O “vôo” – ou seja, a morte – da ex-esposa não anula a obrigação do homem para com o filho vivo no caso “dela fugir para Nergal”.[1] Porém, quando um espírito feminino voa para um lar e “casa-se” com um esposo vivo, atormentando-o sexualmente, a ex-esposa é expulsa através de um exorcismo criativamente adaptado no formato de um guet. Essa simulação de contrato de divórcio não estipula pensão nem tampouco menciona filhos hipotéticos. O seguinte texto foi traduzido de um amuleto babilônico, em aramaico:
Este é o contrato de divórcio (guet) para demônios, espíritos, Satã e Lilith; em ordem de bani-los de toda a casa. Yah, interrompa o Rei dos demônios, a grande governante das liliths. Eu te adjuro, seja você macho ou fêmea.[2] Eu adjuro você. Assim como os demônios escrevem cartas de divórcio, dão-nas para suas esposas e não retornam para elas, pegue sua carta de divórcio. Aceite sua ketubá, vá, deixe e parta da casa. Amém, Amém, Amém, Selah.[3]
Na Babilônia encontramos amuletos em aramaico personalizados para “amarrar” Lilith. Aparentemente foram confeccionados por encomenda de casais desejosos de afastar as tentações e trazer prosperidade ao seu lar. Costumeiramente, apresentam um texto enroscado como uma longa tira em caracol contendo elemento do divórcio e/ou do exorcismo circundando uma rústica representação de Lilith acorrentada.
Por exemplo, no séc. VI a.C., o rabino Joshua bar Perahia enviou um banimento adjurando “Lilith, o macho lilim, as fêmeas liliths, a Bruxa e o Ladrão” a deixarem a residência de Geyonai bar Mamai e sua esposa Rashnoi, filha de Marath, em nome de YHWH-El, deus de Abraão, Isaac e Jacó. Todos estes seres ‘divorciados’ foram expulsos para longe, completamente despidos. Lilith, “cujo pai é chamado Palhas e cuja mãe é Pelahdad”, não estaria nem mesmo “vestida com seus cabelos desalinhados que deixa voar atrás de suas costas”.[4] Explica:
Um guet desceu para nós do paraíso e neste encontrou-se escrito seu aviso e intimação em nome do Palsa-Pelisa que vos rende teus divórcios e separações. Então, Lilith, macho lilin e fêmea lilith, Bruxa e Ladrão, estejam incluídos no banimento... de Joshua bar Perahia, que tem assim falado: “Uma carta de divórcio, que cruzou o mar, veio para vocês...”.
Saibam disto e deixem a moradia residencial de Geyonai bar Mamai e sua esposa Rashnoi, a filha de Marath. Vocês não podem aparecer para eles novamente, tanto nos sonhos à noite quanto no repouso de dia, porque vocês estão selados com o signo de El-Shaddai, com o signo da casa de Joshua bar Perahia e pelos Sete que estão depois dele. (University Museum, University of Pennsylvania).[5]
Expulsos por uma carta de divórcio enviada pelos “exércitos de fogo nos astros, na Carruagem de El-Panim”, os “cinco de vocês”, Lilith, macho lilim, fêmea lilith, Bruxa e Ladrão, compõe uma coletividade afim. O rabino Joshua bar Perahia – ou aquele que escreve em seu nome – coloca Lilith como uma espécie de padroeira das bruxas e ladrões.[6]
Da mesma forma, num amuleto persa contendo um exorcismo doméstico personalizado para Bahram-Gushnasp, filho de Ishtar-Nahid, presume-se que uma feiticeira havia previamente utilizado seus conhecimentos de astrologia, bruxaria, maldições e invocações para encher a casa daquele homem com demônios, diabos e liliths. O amuleto em aramaico segue o estilo babilônico, com texto em caracol circundando uma Lilith acorrentada:
Vocês estão atados e selados. Todos vocês: Demônios, diabos e liliths. Forte e poderosamente presos, assim como estão presos Sison e Sisin... A maligna Lilith, que faz os corações dos homens perderem-se, que aparece nos sonhos noturnos e nas visões do dia, que queima e derruba com pesadelo, ataca e mata crianças, meninos e meninas. Ela está dominada e selada fora da casa e moradia de Bahram-Gushnasp, filho de Ishtar-Nahid, pelo talismã de Metatron, o grande príncipe, que é chamado ‘O Grande Curandeiro da Misericórdia’... que vence demônios e diabos, artes negras e poderes da bruxaria. Afasta-os da casa e moradia de Bahram-Gushnasp, filho de Ishtar-Nahid. Amém, Amém, Selah.
Estão vencidas às artes negras e os poderes da bruxaria. Vencida a mulher feiticeira. Suas bruxarias, ataques, maldições e invocações [foram] afastadas das quatro paredes da casa de Bahram-Gushnasp, filho de Ishtar-Nahid. Vencida e jogada abaixo está a mulher feiticeira: Vencida na Terra e vencida no Céu. Estão vencidas suas constelações e estrelas. Estão atados os trabalhos de suas mãos. Amém, Amém, Selah (The Semitic Museum, Harvard University)[7].
Amuletos esconjuratórios podem mesclar técnicas e estilos, mas o tema central costuma girar em torno do ciclo da reprodução humana. Reunindo as informações inclusas nas fontes analisadas construímos o retrato popular do reino de Lilith.
Na Babilônia e na Pérsia os demônios invadem lares em bandos, aparecendo tanto nos sonhos à noite quanto no repouso (ou visões) de dia. Lilith, os machos lilim, as fêmeas liliths, demônios, espíritos e Satã podem acompanhar humanos igualmente indesejáveis como a Bruxa e o Ladrão. Por isso precisam ser vencidos na Terra e no Céu. É uma sociedade hierarquizada.
Lilith, filha de Palhas e Pelahdad, é a grande governante das liliths. Ela poderia fazer par com Satã, o Rei dos demônios, mas quando se cansam de uma parceira os demônios escrevem cartas de divórcio, dão-nas para suas esposas e não retornam para elas.
A maligna Lilith anda vestida com seus cabelos desalinhados que deixa voar atrás de suas costas. Ela leva os corações dos homens à perdição, queima e derruba com pesadelo, ataca e mata crianças de ambos os sexos. Um antigo manuscrito babilônico sugere as seguintes salvaguardas: “Coloque uma agulha perto da mecha de um candeeiro, ou coloque uma medida de trigo no quarto da parturiente a ser protegida contra Lilith”.[8]
Definição de Lilith no Talmud:
A lilith acorrentada dos amuletos babilônicos voa, mas não possui asas. No entanto, entre as fontes iconográficas conservou-se um baixo relevo do período helenístico retratando uma Lilith alada, com pés de pássaro, atacando um judeu adormecido.
Ela ‘senta-se’ sobre o homem, assumindo a posição sexual superior. O Talmud, elaborado por rabinos do século III ao VI, informa que Lilith é uma demônia que possui face humana e asas (B. Nid. 24b). Lilith tem cabelos compridos (b. Er. 100b) e, segundo o conselho de Rabbi Ḥanina, “é proibido dormir sozinho numa casa, porque quem dorme sozinho numa casa é abraçado por Lilith” (B. Shab. 151b).[9] Seu histórico de avidez sexual remonta aos tempos da expulsão de Adão do Édem:
Rabbi Yirm’ ya bem El‘azar falou: “Em todos aqueles anos nos quais Adão, o primeiro homem, esteve apartado de Eva, ele gerou espíritos, demônios e Lilin...” Rabbi Meir falou: “Adão, o primeiro homem, era muito piedoso. Quando viu que a punição de morte fora ordenada [por deus] por sua causa, sentou-se em jejum por 130 anos, separou-se da mulher por 130 anos, e usou cintos de figo sob a carne por 130 anos. Mas nós estamos falando [sobre espíritos, demônios e Lilin] que ele gerou por meio de emissão espontânea de esperma. Sua paternidade dos espíritos malignos, aqui referidos, veio como resultado de sonhos úmidos” (B. Er. 18b).[10]
Essencialmente, esta história é um alerta contra o impulso sexual reprimido pelo celibato. O casamento supostamente evitaria incômodos oníricos, como as “imagens de obscenidade” registradas no ano 400 pelo bispo Agostinho de Hipona.
“A ilusão da imagem”, queixou-se Agostinho, “possui tanto poder na minha alma e na minha carne, que, enquanto durmo, falsos fantasmas me persuadem a ações a que, acordado, nem sequer as realidades me podem persuadir”.[11] No folclore judaico esta variante sobrenatural do estupro pode resultar numa prole numerosa. O Talmud contém um curioso testemunho ocular de Rabba bar Bar Ḥana sobre a captura e execução de um deles:
Certa vez eu vi Hormin [Ahriman], filho de Lilith, correndo no topo das fortificações da muralha de Mahoza. Um cavaleiro estava passando abaixo da muralha e não conseguiu capturá-lo. Ao mesmo tempo eles selaram para ele [Hormin] duas mulas nas duas pontes do rio Rognag.
Ele pulou de uma à outra, indo e vindo. Segurou dois copos de vinho durante todo o tempo, passando o vinho de um para outro, e não caiu nada no chão. Aquele dia estava [tempestuoso como àquele sobre o qual isto foi escrito] Elas [as ondas] subiam ao céu e baixavam ao abismo (Salmo 107:26). E quando a casa do governante [dos demônios] foi posta a par disto, eles o mataram [porque não é costume entre os demônios exibir-se aos humanos, e revelar seus segredos]. (B. Bab. Bath. 73a-b).[12]
Lilith tornou-se uma espécie de bicho-papão inventado para amedrontar os adultos. Em resumo, Lilith é uma ninfomania que usa o sêmem desperdiçado pelos celibatários durante o sono para conceber uma infinidade de demônios.
Na idade adulta esses filhos infernizam a vida do pai – e de toda a população – fazendo desde bruxedos ou traquinagens inofensivas até o cúmulo das guerras, pestes e todo tipo de desgraça. Mas o folclore que cria monstros também receita remédios para os que insistem em adiar a data do casamento.
Por exemplo, Shahrukh Husain retomou um conto judaico onde a religiosidade popular conseguiu driblar o conselho da moral ortodoxa. Nesta história, um judeu seduzido e enfeitiçado pelos encantos de Lilith resolveu pedir ajuda ao Rabino Mordecai, de Neschiz. Porém, quando soube de sua vinda, o rabino avisou a todos os judeus da cidade para não deixá-lo entrar em suas casas, de forma que o enfeitiçado não encontrou lugar para passar a noite e foi obrigado a dormir sobre um monte de feno.
À meia-noite Lilith apareceu e pediu-lhe que levantasse do feno. O judeu estranhou o fato, pois era ela quem sempre ia até ele e não o oposto. Quando Lilith explicou que naquele monte de feno havia uma folha de capim que lhe causava alergia o homem pegou a folha e enrolou-a em volta do pescoço “livrando-se assim para sempre do domínio dela”.[13] Liberto do fado punitivo, ele finalmente pode contrariar o Talmude dormindo só e em paz.
Exorcismos e invocações por via oral:
No Targum Jerushalami, a bênção sacerdotal do texto massorético “Iahweh te abençoe e te proteja” (Números 6:24), foi ampliada para “O Senhor te abençoe em todo ato teu e te proteja dos Lillim”. A pronúncia desta curta sentença oral devia representar uma das formas mais simples de proteção de seu tempo.
Porém, havia um complexo sistema ritualístico cunhado para o trato de Lilith e sua descendência. Amuletos contendo exorcismo residencial podiam ser personalizados e utilizados por pessoas comuns; mas as fórmulas do banimento de um reino deveriam ser recitadas por um instrutor especializado. O capítulo 34 do Livro de Isaías serviu de base para a construção de um exorcismo da comunidade qunrânica a ser proferido pelo detentor do título de Instrutor (Maskil). O texto faz parte de uma biblioteca acumulada durante vários séculos por um grupo sectário e depositada em grutas no deserto de Judá no ano 68 do século I da era cristã:
Eu, o Instrutor, proclamo a majestade de seu esplendor, a fim de assustar e aterrorizar todos os espíritos dos anjos da destruição e os espíritos bastardos, demônios, Liliths, corujas e chacais [...], aqueles que atacam inesperadamente para desviar o espírito do conhecimento, para deslocar seus corações.[14]
Em II Baruch, um livro apócrifo cristão escrito em siríaco no fim do primeiro século, encontramos a inversão desta fórmula num cântico cunhado para trazer a destruição da espécie humana pela invocação destes seres:
Eu invoco as sereias do mar; ó vós, Lilin, espectros da noite, vinde do deserto! Ó vós, Shedim[15] e vós, dragões das florestas! Vinde! Cingi os vossos lombos para o gemido de dor e entoai comigo os cantos de luto! Gemei comigo! (II Baruch, X).[16]
Quando o Livro de Isaías estava sendo escrito já se confeccionavam amuletos profiláticos contra Lilith. De certa forma, ela era suficientemente conhecida para que o autor bíblico dispensasse sua apresentação e mencionasse apenas sua procriação num reino destruído pelo castigo de Iahweh.
Em Isaías 34:14, Lilith aparece residindo nas ruínas de Edom. O Zohar retoma a profecia, na interpretação de que deus provocaria a destruição e o arruinamento eterno da perversa Roma medieval. — “Ele enviará Lilith para lá, e a deixará habitar naquela ruína, porque ela é o arruinamento do mundo.
A isto se refere o versículo: ‘Ali Lilith repousará e encontrará seu local de descanso’ (Isaías. 34:14)” (Zohar 3:19a). — Os anjos da destruição que acompanham as liliths nos Cânticos do Maskil também destroem os povos que andam no lote de Belial (personificado pelas tropas de Edom, Moab, dos ‘filhos de Amon’, da Filistéia, dos Kittim no Egito e Assur) na Regra da Comunidade, de Qumran.
Sua vinda “será para abundância de castigos por mãos de todos os anjos de destruição, para condenação eterna pela ira abrasadora do Deus da vingança, para erro perpétuo e vergonha sem fim com a ignomínia da destruição pelo fogo das regiões tenebrosas”.[17] O Livro de Isaías profetiza que após a destruição de Edom suas ruínas seriam ocupadas pelos ’Ochim,’Iyyim, Tannim, Benoth ya‘anah, Çiyyim, Se‘irîm e Lilith.
No Salmo 74, versículo 14, os Çiyyim representam “as duas cabeças de Leviatã”. Tem como sentido exato “habitante do deserto” ou “gritador, cavador” e provém da mesma raiz de Tannim, ’Iyyim e ’Ochim, cujo sentido é “uivar” ou “prolongar-se com gritos discordantes”.[18] Benoth ha ‘anah traduz “Filhas da Gula”. A impressão que temos é de uma orgia selvagem ou de bando de criaturas fazendo uma barulhenta algazarra.
No mesmo lugar viveriam os se’irîm, que a Bíblia dos Setenta traduz como δαιμόνια “demônios” (Isa. 34:14) e μάταια “coisas vãs” (Lev. 17:7).[19] Ao fazer a conversão das entidades mitológicas judaicas para as gregas, a Vulgata associou os se’irîm aos sátiros.
O texto bíblico fala sobre facções judaicas politeístas cujos sacerdotes ofereciam sacrifícios “aos sátiros com os quais se prostituem” (Levítico 17:7).[20] O auge de sua difusão deu-se no governo de Jeroboão, filho de Nabat, que “estabelecera sacerdotes para os lugares altos e para o culto dos sátiros e dos bezerros que ele tinha fabricado” (II Crônicas 11:15).[21]
Posteriormente, Josias estendeu sua autoridade sobre uma parte do antigo território israelita no “Reino do Norte”. Durante seu reinado (640-609), demoliu “o altar que estava em Betel”, edificado por Jeroboão, “destruiu este lugar alto, queimou-o, reduziu-o a cinzas e queimou o poste sagrado” (II Reis 23: 15).[22] Porém, em Edom todo tipo de demônio encontraria um lugar de descanso. Ali, nenhum deles faltará, nenhum deles ficará sem o seu companheiro, porque assim ordenou a sua boca; o seu espírito os ajuntou. Ele mesmo lançou a Sorte para eles, a sua mão distribuiu-lhes, com o cordel, a porção de cada um. Eles a possuirão para sempre, de geração em geração a habitarão (Isaías 34: 16-17).[23]
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Machos lilim, fêmeas liliths, demônios, espíritos, Satã, Bruxa, Ladrão, ’Ochim,’Iyyim, Tannim, Benoth ya‘anah, Çiyyim, Se‘irîm, anjos da destruição, espíritos bastardos, espectros da noite, Shedim, dragões das florestas, etc. Na antiguidade Lilith andava sempre em bando, povoando as ruínas de reinos e cidades destruídas. Todas essas criaturas que a acompanham vão influenciar de alguma forma as características de Lilith nos comentários posteriores.
Bibliografia:
LANGTON, Édouard. La Démonologie: Étude de la doctrine Juive et Chrétienne son origine et son développement. Trd. G. Waringhien, Agrégé de L’Université. Paris, Payot, 1951.
PATAI, Raphael. Gates to the Old City: A Book of Jewish Legends. New York, Avon, 1980, p 184.
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[1] BARTON, George Aaron. Contracts. In: Assyrian and Babylonian Literature. New York, D. Appleton & Company, 1904, p 256-276.
[2] Alusão ao Gênese “macho-fêmea o criou” (Gen. 1:27): “Samael e Lilith foram criados similares à forma de Adão e Eva” (Pequenos Hehalot, In HÁ-KOHEN, Isaac b. Jacob. Tratado da Emanação Esquerda).
[3] PATAI, Raphael. The Hebrew Goddess. Third Enlarged edition. New York, 1978. KTAV Publishing House. (Also: Wayne State University Press, 1990).
[4] PATAI, Raphael. The Hebrew Goddess. Third Enlarged edition. New York, KTAV, 1978.
[5] PATAI, Raphael. The Hebrew Goddess. Third Enlarged edition. New York, KTAV, 1978.
[6] PATAI, Raphael. The Hebrew Goddess. Third Enlarged edition. New York, KTAV, 1978.
[7] PATAI, Raphael. The Hebrew Goddess. Third Enlarged edition. New York, KTAV, 1978.
[8] KULTUV, Bárbara Black. O Livro de Lilith. Trd. Rubens Rusche. São Paulo, Cultrix, 1997, p 141.
[9] PATAI, Raphael. Gates to the Old City: A Book of Jewish Legends. New York, Avon, 1980, p 184.
[10] PATAI, Raphael. Gates to the Old City: A Book of Jewish Legends. New York, Avon, 1980, p 185.
[11] AGOSTINHO. Confissões. Trd. J. Oliveira Santos, S.J., e A. Ambrósio de Pina, S.J. São Paulo, Nova Cultural, 1996, p 287.
[12] PATAI, Raphael. Gates to the Old City: A Book of Jewish Legends. New York, Avon, 1980, p 184-185.
[13] Lilith e a Folha de Capim. In: HUSSAIN, Shahrukh. O Livro das Bruxas. Objetiva.
[14] Texto reconstituído a partir de fragmentos de dois pergaminhos: 4Qcânticos do Sábioa (4Q510 [4QShira]), fragmento 1: 4-6, e 4Qcânticos do Sábiob (4Q511 [4QShirb]), fragmento 10: 1-3. In: MARTINEZ, Florentio García. Textos de Qumran. Trd. Valmor da Silva. Rio de Janeiro, Vozes, 1995, p 417 e 419.
[15] O árabe Shedim deriva do hebraico Siddim. Parece vir da raiz ShD, da qual deriva o nome divino Shaddai. Significa literalmente “derramadores”, mas costuma ser traduzido como “demônios”. Os cananeus “sacrificaram seus filhos e suas filhas aos Siddim” (Salmos 106: 37) e os adoravam como divindades.
[16] TRICCA, Maria Helena de Oliveira (org). Apócrifos III: Os Proscritos da Bíblia. São Paulo, Mercuryo, 1996, p 307.
[17] 1QRegra da Comunidade (1Qs), Col. III: 9-13. In: Textos de Qumran: Edição fiel e completa dos Documentos do Mar Morto. Tradução dos originais hebraico e aramaico à cura de Florentino García Martinez. Tradução do espanhol: Valmor da Silva. Petrópolis, Vozes, 1995, p 50.
[18] Nas 14 passagens onde Tannim figura na Torah, a Bíblia dos Setenta traduziu de seis formas diferentes. ’Iyyin significa ainda “uma ilha” de onde vem a versão inglesa “os bichos selvagens das ilhas”.
[19] LANGTON, Édouard. La Démonologie: Étude de la doctrine Juive et Chrétienne son origine et son développement. Trd. G. Waringhien, Agrégé de L’Université. Paris, Payot, 1951, p 48.
[20] A BÍBLIA DE JERUSALÉM. Paulus, julho de 1995, p 194.
[21] A BÍBLIA DE JERUSALÉM. Paulus, julho de 1995, p 651.
[22] A BÍBLIA DE JERUSALÉM. Paulus, julho de 1995, p 588.
[23] A BÍBLIA DE JERUSALÉM. Paulus, julho de 1995, p 1213-1414.
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